de merda

E um artista esbarrou no outro e disse: que merda.
Mas... Mas que merda!
Ele não compreendia o mundo, e xingava o mundo por isso.
E viu que o outro também não entendia nada, mas tinha pistas.
Ora, ele também tinha as dele.
Trocaram as pistas e resolveram fazer merda juntos.
Agora, não param de fazer merda.
E gritam um para o outro: merda pra você!

ajeitados

A corrida vai passar aqui na porta de casa, e ele prepara a casa, arruma, e deixa as janelas abertas. Corre pra arrumar o quarto. Corre pra arrumar a cozinha. Corre pra arrumar a sala. E corre tanto, e arruma tanto, que a corrida passa, ele não viu. E agora lembra que o tempo também corre. E diz assim pra mim: preciso arrumar tempo.

amarelados

André Luiz Sarmento, o Luda, famoso pelos comentários literários que lança com ironia nas mesas redondas de domingo, sempre enfrentou dificuldades em aceitar-se escritor de novelas policiais, mesmo com o sucesso das críticas, que apontavam Luda como uma espécie de sherlock das filosofias pós-modernas, e só descansou seu coração ávido pela glória interna quando viu, pela primeira vez, um livro seu na vitrine de um sebo. Imaginou assassinatos borrando as páginas amareladas, reeditou a ideia do veneno nas orelhas do livro, e chegou a um código mortal escondido entre as letras do primeiro parágrafo. Estava mesmo era feliz, pois o status de museu em vida, já aos quarenta e cinco anos, era o sinal de que a maturidade literária prometia. Foi só pensar nisso e um cortador de gramas atingiu sua cabeça.



corra o risco, lola, corra

no canto

Eu não quero atrapalhar. Não, não, não. Eu fico ali fora, não precisa nem levantar. Tem uma mesa ali no pátio, eu vou ficar ali, no canto, vou ficar encantado, esperando você. Vê se não demora.

de mariana

Quando a Mariana encontrou a outra Mariana, aconteceu como um soco, foi tudo de uma vez. A Mariana e a Mariana, juntas, não eram duas Marianas, não se somavam. Não: era Mariana ao quadrado.



(...)
não tem dia perfeito
mas tem hoje, serve?
(...)

infantis

Eu não quero ser criancinha. Que precisa de birra, que precisa de guias, que é cruel fora da medida. Se não for pedir muito, quero poder olhar você sem pudor, abraçar você com gratuidade, sorrir só quando quero sorrir. Pra você, pra tudo: eu quero ser criançona.



mortos

No tribunal, Lili come as unhas. É jurada, mas sabe que vive uma mentira. Escuta a defesa, o juiz, os promotores. Enquanto isso, pensa na vizinha, que espirra água por cima do muro, que não recolhe o lixo do jeito recomendado, que prende o cachorro na área. Os latidos não pararam durante a noite. Já deve estar faminto. Lili tem pena do cão e, agora, puxa um pedaço de pele, e mastiga. Não quer pensar muito nos crimes dos outros.



acordou com vontade de errar e foi dormir artista

escritos

Escrevendo, escrevendo, escrevendo. Imagina uma frase e coloca na tela. E escreve. Quando vê, repetiu a frase lá na frente. E é bom. Escreve, escreve. Segue preenchendo a página. Escreve, escreve. E, se parar para pensar, está procurando um jeito de encaixar a frase outra vez. E encaixa. E repetiu. E fez sentido. Três vezes, melhor que duas. Sua literatura é ímpar.

relativos

Banho quente é um perigo para a pele, é o que ela diz. Banho quente é ruim para o cabelo. Banho quente não fortalece a imunidade. Banho quente gripa, amolece, gasta água, enferruja tudo. Mas banho quente é bom.



é que ando pensando umas coisas
é um inferno, não paro de andar

de vigília

A bicicleta cruzou o caminho de outra bicicleta. Rodas, tênis, um pouco de sangue. Os pedestres se dividiram, tentaram eleger o culpado, mas acabaram brigando. E entraram os lojistas na briga. E os frentistas, os ambulantes, a vizinhança gritou da janela. Ninguém notou um carro modelo 2006/2007, marca francesa, cinza, passando em baixa velocidade, e o escapamento soltando uma fumacinha irônica, um risinho amarelo, mas não de constrangimento, riso de gasolina. Os cães ladrando. E a caravana, ali, passando.

contados

Um conto. Dois contos. Três contos. Leu, leu, leu. No final, rico, adormeceu. Acordou guloso. Mais um conto, dois contos, três, quatro, cinco contos. Não dava conto, ficou por conto, o conto não fechava, nem te conto. Conto mais, conto até vinte. E vai por aí, até dormir outra vez.

de mudança

Churrasqueira na varanda: agora vai promover festa, vai convidar os amigos. Pista de atletismo privativa: agora vai correr em segurança, vai emagrecer e ficar bem disposto. Piscina coberta: agora vai nadar no inverno, vai ficar condicionado. Segurança 24 horas: agora vai se sentir seguro 24 horas. O horizonte aberto desde a varanda: agora, agora, agora. Agora vai abrir as caixas, vai desembrulhar, vai encher as estantes de coisas da outra casa, e da outra, e da casa dos pais, e dos avós. Não, agora não: parquinho infantil, jardim com orquidário, espaço gourmet.

de fuga

Sai de casa vestido de preto, e até o cabelo está mais preto que o normal, e o tênis preto em passos ritmados, indo ao cinema, e vai anunciando pelo celular, vou ao cinema, conta para si, contando para o mundo, que hoje, na altura dos acontecimentos, só uma sala escura com um filme na frente pode dar jeito. Vontade de encher a cara de cinema. Que vontade.





zerados

No sonho, ele corria na areia fofa, enterrava os pés na areia até perder as canelas, depois os joelhos, até ficar sem as pernas. Mesmo assim, corria querendo correr. Olhava para trás vez ou outra. Os amigos, as namoradas, os filhos, e a mãe chorando de saudade, e o pai gritando: volta, volta filho, ou eu deserto você. Então, voltou.

desencontrados

Marcaram um encontro mas nenhum dos dois foi. Souberam, anos depois, do sucesso um do outro. E tentaram um novo encontro, um encontro casual. Planejaram, contactaram, vigiaram. Mas sempre há o acaso e, por acaso, não deu. Descobriram que nem sempre o acaso trabalha a favor. O acaso é fruto de uma coleção de acontecimentos, também eles influenciados pelo acaso, e assim por diante. O acaso agradece a força mas informa que nasce, também, do acaso.

em xeque

E enviavam e-mails, telefonavam todos os dias, batiam à minha porta, escreviam nas portas dos reservados, em colunas de jornais, em manifestos abertos, encenavam a questão nos palcos, gravavam depoimentos, até cartas escritas à mão mandavam. Diziam assim: tome uma posição. E eu pergunto: tem em comprimido?

velados

E não era interessante perceber com que frequência lançávamos comentários maliciosos, cobertos por uma covardia divertida, contando a todos ao redor, descontraidamente, as impressões que estaríamos causando em outras pessoas, baseado apenas em nossa intenção perversa? E se meus olhos realmente fuzilassem, como ouvi dia desses, o cheiro de queimado viria forte, e quem sabe uma fumacinha para acompanhar, e eu precisaria de um novo monitor.




(tem dias que você chega em casa
 e se pergunta por que saiu,
 ou se pergunta por que voltou,
 abre o armário e tudo falta,
vai dormir quente,
e no dia seguinte acorda torto,
 de ressaca)

acuados

E disseram isso: tudo tem sempre dois lados. Dois lados. Ela escutou quieta, no canto da sala, um pouco cansada dos atritos não verbalizados, cansada da dificuldade que tinha em cruzar as próprias fronteiras, em romper o limite com o outro, chegar junto, como se diz, e decidiu que permaneceria mesmo era do lado de cá.

com música

Um filósofo, muito polêmico em vida, ainda polêmico, recomendava que se dançasse uma vez por dia, coisa de filósofo embrenhado em vida prática, coisa de filósofo sabido. Uma dançarina, muito amada em vida, idolatrada ainda, alertava que estaríamos perdidos caso não dançassemos, não dançassemos, assim, duas vezes, dada a gravidade das coisas. Então, resolvi dançar. E dancei. É fácil, e funciona.

insones

Massa fresca, daquela verde que você gosta, as azeitonas cortadas ao meio, os cogumelos cortados ao meio, manjericão picado, alho picado, naco de queijo pra ralar na hora, água quase no ponto, até a panela é nova. Três da manhã, três e meia, short de pijama, avental, e tudo pronto. Só não tem azeite, acabou. Tem manteiga. Serve, não serve? A noite vai seguir nas substituições: o azeite na manteiga, você no macarrão, o vinho no suco de uva, que eu não posso beber, os remédios pra dormir, lembra? Pelo menos a panela é nova. E a noite, assim, cortada ao meio. A noite sempre cortada ao meio.

sincrônicos

Há os acasos: a troca de malas, o filme no meio, a moeda no chão. Há as escolhas: as malas destrocadas, a segunda metade do filme, a moeda no bolso. E há aqueles dias em que as duas realidades parecem se trombar logo de manhã, casualmente, e demoram para se recompor, escolhendo, segundo a segundo, permanecer ali, uma na presença da outra. Acaso e escolha, dimensões emboladas. Toda noite eu escolho a hora do despertador, toda manhã eu escolho entre levantar da cama e ficar mais um pouquinho, decido se adio a vida por mais alguns minutos, ou coloco de vez os pés na corda bamba do acaso.

órfãos

E a professora falou: percebam que, na terceira linha, o autor se refere ao pai. Dona Rosa procurou e não achou. Perguntou para o colega ao lado. Cadê? Onde está o pai? E o colega mostrou com o dedo a palavra velho, entre duas vírgulas, ali, escondido entre duas pequenas pausas. Obrigada, encontrei. E olhou o velho entre as vírgulas, ficou olhando o velho entre dois suspiros. Mas não adiantou. Dona Rosa, até agora, ainda não encontrou o pai no meio daquele texto.

# Ontem falei tanto de você.
# Ah, me conta. Eu não sei nada de mim.


(diálogo roubado)

Não mexe comigo, que eu não ando só. Pensando assim, recitou a canção, que escutou no meio de uma entrevista, que passou no meio de um programa de variedades, no meio de um bloco comercial, na coluna daquela  moça bonita, naquele canal da televisão, sorteado ao acaso no meio de tantos canais, na TV que ligou como opção ao rádio, opção aos livros, opção ao passeio, opção à varanda no fim da tarde. Dona Rosa agora pensa: será que fui só eu que escutei? Será? E, sozinha nos pensamentos, adormeceu, e sonhou com aquela canção. Ou pelo menos parecia.

Como era mesmo essa história de tempo?
Como era mesmo essa história?
Como era mesmo?
Como era?
Como?
(...)
Como?
Como era?
Como era mesmo?
Como era mesmo essa história?
Como era mesmo essa história de tempo?

engarrafados

E ganhei uma garrafa azul, de plástico, eterna, retrátil, que se põe de pé à medida que se enche d'água. A garrafinha é original, tem uma perna na ciência e outra na arte. É prática, útil, mas também é bonita, colorida, e até faz pensar. E vou beber muita água na garrafinha, para também me pôr de pé, à medida que vá me enchendo, e quem sabe eu também me transforme em algo eterno, com uma perna lá e outra ainda mais pra cá.

prescritos

E as aventuras de dona Rosa continuam. Dona Rosa adora enxergar sua vida como uma grande aventura e conta tudo o que acontece pelo telefone. Conta para as filhas, para o filho, para a tia preferida, para a ex-vizinha que foi morar em Campos, para a irmã já caduca. Ontem, por exemplo, dona Rosa foi a uma farmácia de manipulação pedir para fazer um xampú. A mocinha do balcão pediu a receita mas dona Rosa não tinha mais. Mas é um xampú inofensivo, vende igualzinho na drogaria da esquina, é que eu prefiro o cheiro do de vocês. Mas, dona Rosa, eu preciso de receita. Então dona Rosa entendeu que precisava ir a um dermatologista e conseguir a receita do xampú, mesmo com o xampú vendendo na esquina. Dona Rosa agradeceu, aborrecida. Passou na drogaria e comprou um calmante que não precisava de receita, um fraquinho, um calmantezinho. Chegou em casa e tomou o calmantezinho, misturou com o meio lexotan de sempre, que o filho arranjava de graça. Deitou na cama mais cedo e pensou em ligar para a irmã caduca e contar a história. Mas dormiu antes, sem lavar a cabeça.

previsíveis

Toda essa história de prever o nascente e prever o poente, e as marés e as temperaturas. Faz o caos ficar um pouco mais controlado, aparentemente. E isso acalmava dona Rosa. Sentia-se serena lendo a segunda página do caderno cotidiano, todos os dias, todos os dias. Então as marés virão assim? Então o frio chegará a tanto? Sentia uma inveja pequena da ousadia do frio, da ousadia do calor, da natureza bem comportada mas com impulsos de rebeldia. Pequenas rebeldias. Que linda, a natureza, enquanto aguava as plantas no parapeito. Bonita, a natureza, enquanto colhia cebolinha no quintal. Mas ontem dona Rosa esqueceu de vedar a fresta alta da porta da frente. Entrou vento encanado, e ela sabia que o tempo viraria. Mas, mesmo sabendo, o vento entrou e levou o jornal embora, antes mesmo de dona Rosa ler a previsão do tempo em Washington d.c. Para essas horas, um chá bem forte e meio lexotan. Mais cedo para a cama, dona Rosa.


de anamnese

# Os olhos estão vermelhos?
# Não sei. Me diz você.
# Olhos vermelhos. Lacrimejando?
# Não. Não por isso.
# Dor nas articulações?
# Sempre. Não sou bem articulado, mas você sabe que tento.
# Vamos focar? Eu tenho outras coisas para fazer além de brincar de médico.
# Pena. Vá em frente.
# Coceira?
# Coceira.
# Corisa?
# Não, corisa não.
# Deixa ver. Três, quatro, cinco de dez sintomas. Devia ter pelo menos seis.
# Devia, é?
# Quero dizer, se você estivesse doente. Cinco, você tirou cinco.
# Raspando. Me faz lembrar do colégio. Lembra?
# Mas você precisa se cuidar.
# Cinco sintomas tá bom. Continuo um sujeito abaixo da média.
# Tem que ver essa coceira. Não é pulga do Adolph?
# O Adolph é a coisa mais limpa daquela casa. Isso não mudou.
# Dá um beijo nele.
# Quanto você tirou?
# Tirei no quê?
# Nos sintomas. Eu sei que você sempre se aplica e reaplica nestes testes.
# Quatro. Tirei quatro.
# Nunca pensei que fosse ganhar uma de você.
# Aqui, menos é mais. A medalha é minha.
# É. Tem coisa que nunca vai mudar.

E já era para ter aprendido, já era para ter ligado os pontos, preenchido as lacunas que dão sentido, preenchido as lacunas que deixam uma narrativa de pé, e já era mesmo para ter aprendido que do caos vem a ordem e que da ordem nada se pode esperar a não ser o desmanche e o caos, e que isso aqui é um ciclo, é redondo e cheio de amassados, como os planetas, e que não é uma reta que termina em final feliz ou moral de história, e que não é uma reta que termina, e que não é uma reta, e já era para ter aprendido, já era para ter ligado os pontos, preenchido as lacunas que dão sentido, preenchido as lacunas que deixam uma narrativa de pé, e já era mesmo para ter aprendido que do caos vem a ordem e da ordem nada se pode esperar a não ser o desmanche e o caos, e já era...

registrados

Socorro Melo e Castro casou-se. Não teve filhos e acostumou-se com a casa apertada, com o forno de fogo baixo e com a cama que rangia. Uma fotografia sua está pendurada em um museu de Fortaleza e seu nome, hoje, é apenas a legenda de uma fotografia triste.

dos outros

Não fico triste por não estar tão feliz nem fico feliz por não estar tão triste. Perto de mim, o outro sempre se alegra mais do que eu pela minha vitória. Para o outro, sempre será mais aterrorizante a minha doença. Do outro lado, as bençãos e revezes sempre são mais verdes. Porque a minha vitória, a minha doença, a minha benção e o meu revés estão dentro de mim e não me são estranhos, são meus companheiros íntimos. Para o outro, tudo meu é estranho e abstrato. E potencialmente bom.



camuflados

Não tente me conhecer através dos meus textos. Eu posso tentar te enganar, o tempo todo. Não tente saber como eu faço para te enganar através dos meus textos. Eu posso falar a verdade para te confundir. Não tente descobrir a verdade atrás dos enganos que eu envio para te confundir. Não tente me decifrar. Não aqui.

estáticos

Um sujeito muito discreto. Não gosta de aparecer. Ao sair de casa, tira o som do celular. Anda a cidade toda, todo dia, sozinho, sozinho, sozinho. E torce para ser lembrado. Olha para a tela do aparelho e pede: alguém, alguém, alguém. Me vibra, vai. Por favor.

Para ser meu herói
Não salve minha cidade, não salve meu país, não salve meu planeta
Nada salve
Não me conquiste a rua, não me conquiste o céu
Não me conquiste
Não revele as verdades
Aliás, nada revele
Apenas me deixe assistir você 
Amarrando o cadarço do sapato.

passados

Eu gostava de sentar no meio fio, gostava de brincar com pé de galinha, gostava de me cobrir de areia quente e de sentir o rosto grudento depois de raspar doce da panela. Desconfio que ainda goste disso tudo. Mas as cadeiras lustradas, os jogos eletrônicos, os filtros solares e a dieta dos pontos me ensinaram a dizer que não.

honestos

Tenho saudade da guerra. É bom ser honesto e dizer: tenho saudade da guerra. Tenho saudade do inimigo, imaginário ou fisicamente definido, tenho saudade do contraste claro do bem contra o mal, saudade do filtro cômodo do sofrimento e da angústia, porque traziam algum sentido. Vou colocar a guerra no colo, deixar a guerra dormir, captar da guerra o que há de mais puro e pacífico em seu contorno. Quero apenas a busca, por qualquer cisco de vento. Buscar, apenas pela busca.

parados

Quando está farto de todas as coisas, pega um taxi e pede que o leve para o outro lado da cidade. Faz isso às seis da tarde, quando os quilômetros batem recordes e derrubam os quilômetros amontoados no ano anterior. Depois de meia hora, enfadado, agradece ao taxista, paga a conta, desce do carro e volta a pé. Quando chega, cinco minutos depois, perguntam que cara é aquela, e ele diz que foi o trânsito.

binários

Não gosto de kkk. Não gosto de fato nem fica a dica. Não gosto de setas apontando minha cara. Não gosto de ser marcado o tempo todo. O que eu estou, então, fazendo aqui? Talvez não goste de beijos gratuitos e abraços mecânicos, mas talvez goste dos bjs e abs fáceis. E também me agradem os @ e # que invadiram minha vida. Talvez goste de curtir, e também de  :o) ,  ainda que virtualmente.

melhores

Dé melhorou de vida e leu no jornal que ascendeu de classe. Achou bacana ascender. E foi legítimo: ganhou mais cinheiro, celiciou-se com guloseimas que a infância negara, os cias melhoraram de verdade para Cé. Mas Bé agora já é outro, basa nova, primeiro barro, bonta no banco, bomida na mesa, brianças com futuro. Mas não há limites para Bé, que já não entende o que está acontecendo e que continua com fome, mas não sabe mais de quê. Ele acreditou nos títulos que ganhou dos jornais, do governo, dos programas de televisão, e não sabe mais o que é, o que deixa de ser e não faz idéia do próximo passo que vai dar. Ele desconfia que alguma coisa ficou para trás. Mas também pressente que algo ainda não aconteceu. Aé? Será?

por um triz

E pensar que quase fui outra coisa. E pensar que quase não soube, quase não vi, quase não quis. E pensar que por pouco, e pensar que bem perto, e pensar que outra vez. E pensar que me tornei, por um breve segundo, mas retornei por outro.

resistentes

O mundo todo vem precisando de distâncias cada vez menores para ganhar velocidade e efetuar os saltos largos que nossa loucura contemporânea exige. O meu computador está lento hoje, parece o traidor de um filme de ficção científica. Recusa-se à velocidade, resiste e me pede calma. Parece caminhar para longe da linha de salto, vai com tranquilidade, e depois começa o retorno em baixa aceleração, como um saltador olímpico aposentado e azedo. Agora, na hora em que clico na pasta chamada criação, nada acontece. Alguns segundos, e surge na tela um aviso: criação não responde. E começo a perder a simpatia, prestes a perder a paciência. O ativismo doméstico tem limites, mesmo para uma máquina.



secos

Quando os dias são de ar muito seco, como o de hoje, consigo ver o topo do seu edifício, quatro bairros à leste do meu. É quando consigo te ver da forma mais nítida e lúcida. Porque quando te vejo de perto, minha visão fica estreita pelo sorriso, perdida com tantos detalhes, agitada pela festa que você provoca. Além disso,  tudo fica muito úmido. E você se aproxima tão rápido que não dá tempo de trocar o foco.

primos

E há tempos não vinha uma metáfora destas prontas, óbvias. Eu, de frente para a tela do computador, e um corte no tórax  alinhavado em onze pontos. A respiração doída e a existência percebida segundo a segundo. O peito, insensível na superfície, costurado em onze pontos espinhentos. Onze. Para dividir meu peito em estado primo, só  um, mesmo que seja outro. Sem esta opção, vai dividido por ele mesmo.

serei leve, então
falarei sobre o tempo
falarei sobre o almoço
falarei sobre os preços
apesar do temporal que se forma
apesar da comida sem gosto
apesar de tudo parecer tão caro
serei leve, apesar
(é o que pede a bula)

rústicos

O estofado de couro, o lençol de algodão egípcio, as telas sensíveis ao toque, a faixa etária indicativa, o efeito siliconado do sabonete, os fones com espuminha, os tênis com super amortecimento. Quando você dispara na direção de uma floresta, e embrenha-se, e esquece dos escudos e embalagens, a realidade se insuportabiliza de um jeito... E fica cada vez mais difícil retornar à maciez dos dias.

invisíveis

O retorno é difícil. Talvez seja difícil mesmo quando desejado. Eu pensava nisso enquanto retornava de algum lugar. Não importa qual lugar. O ato do retorno, o recruzar de uma fronteira, a volta ao repouso, ou o inverso disso: o retorno é, agora, um quarto pequeno com paredes invisíveis. A invisibilidade das paredes não faz do quarto um lugar menos claustrofóbico. A angústia é, por vezes, maior. É um não saber de onde se vem, para onde se vai. Ou é justamente o tanto saber da partida, o tanto conhecer sobre a chegada. De qualquer forma, uma impossibilidade de ação, um purgatório brando, um punhado de recéns, um punhado de quases. De onde vem tanta angústia? Da morte do lugar de origem, do nascimento difícil de um lugar desconhecido? Onde estão as paredes para justificar minhas ações suspensas e a ebulição gelada que me comprime o peito?

de busca

O técnico de som gritou no set: silêncio, porra, dá pra fazer silêncio? E ficou procurando o silêncio com o fone no ouvido. Encontrou um som de teclinhas respingadas no captador. Alguém bem perto navegava no celular. Um pouco mais distante, uma moto cruzaria a rua em segundos: era o futuro já presente nos seus ouvidos. Surgiu também uma máquina de lavar roupas, ou talvez fosse um gerador, ou outra máquina qualquer. E um ventilador tocando uma repetição que lembrava música eletrônica. E uns passinhos miúdos, sacanas, um tênis novo tentando passar despercebido. E tanta, tanta coisa. No fundo, atrás disso tudo, havia um silêncio. Ele acreditava nisso. E ele procurou, buscou o silêncio, e rebuscou. Então contentou-se com o que tinha e liberou a ação para o diretor e para os atores. Vai, o som tá pronto. O silêncio, para o técnico de som, sempre foi uma lenda.

reciclados

Respigadores são pessoas que, após o período oficial de colheita, catam os alimentos que brotaram do chão mas que foram deixados para trás. Rebuscadores fazem o mesmo, mas com frutos que pendem das árvores. Os motivos pelos quais os alimentos são desprezados pela produção oficial são vários: disformidade, miudeza, cor inadequada, manchas que possam indicar doenças, ou pura extemporaneidade. Há também aqueles alimentos que não são colhidos para controle de produção, regulação de valor. Não são colhidos por não serem convenientes do ponto de vista econômico, pelo menos naquele exato momento. Não é engraçado que, em uma cidade, em uma empresa, em uma escola ou em uma rede social fazemos o mesmo, com a diferença sutil de que não somos cenouras?

de frio na barriga

Eles teciam abismos, e jogavam-se neles. Teciam abismos como teias, meticulosos nos nós, nos pontos, nas voltas, e jogavam-se  neles. Jogavam-se aos abismos com toda segurança, jogavam-se em seus abismos feitos para a repetição. Jogavam-se assim, seguros assim. Mas na iminência da queda, já com a poeira da terra suspensa, e com os pés ameaçando o ar, vinha um pavor súbito, um medo do próprio desejo: esse abismo, um dia, há de arrebentar.



sobrepostos

O ferro e o oxigênio coincidiram e deu em ferrugem. A água e o fogo coincidiram e deu em vapor. O azul e o amarelo coincidiram e deu em verde. Um pai e uma mãe coincidiram, deu em mim. E eu vou coincidindo por aí, e vou esbarrando nos gestos, nas palavras, nos olhares, e me vejo em coincidências. Eu coincido com paisagens, ou com livros, ou com sons, algumas vezes com pessoas. Em alguma coisa isso vai dar.

importantes

A celebridade foi fotografada comendo algo em uma esquina arborizada de um bairro simples de Aracaju. O lusco-fusco do fim de tarde não colaborou com a identificação do alimento. Sabe-se que era involucrado por um papel branco, que era coisa pequena e que se consumia na base da mordida. A hipótese da pipoca foi, assim, eliminada de pronto. Alguns veículos legendaram as fotos, feitas por um paparazzo novato que prefere não se apresentar. Falaram de churro de doce-de-leite. Mas foi uma conclusão difícil. De fato, a ampliação permite que se veja de forma incontestável um líquido pastoso sobre o dedo indicador esquerdo da cantora, mas um líquido cor de creme, talvez claro demais para um doce-de-leite. Em depoimento a um site especializado, um expert no assunto declarou ser possível a hipótese do doce-de-leite, embora haja grandes indícios de que se trataria de um do tipo mineiro, não do tipo argentino, que costuma ser escuro. Um ex-companheiro da modelo, que optou pelo anonimato mas prometeu se apresentar aos veículos de comunicação nas próximas vinte e quatro horas, diz não concordar com a corrente defensora do churro, muito menos com recheio tão calórico, mas diz acreditar em uma segunda hipótese que vem ganhando força nas redes sociais. "Cachorro-quente, com certeza", teria dito. No mesmo depoimento, o ex-companheiro da atriz arriscou um palpite sobre o líquido viscoso: uma mistura de maionese com mostarda, preferência antiga da ex-namorada. A assessoria de imprensa da apresentadora não se manifestou. Ninguém questionou o que a dançarina, com participação já confirmada na abertura dos Jogos Olímpicos de dois mil e dezesseis, estaria fazendo em um bairro simples de Aracaju.

de balanço

Domingo deu pane no metrô e perdi dez minutos. Ontem deu uma queda de luz e os exames precisaram ser refeitos. Perdi trinta minutos. Hoje o despertador não tocou e perdi uma hora. Também hoje, o computador acordou lento. Perdi quarenta minutos limpando, diagnosticando, reiniciando. Agora, escrevi esse balanço, e deu positivo. Tudo recuperado.



assam-se batatas

reativos

Abrindo os braços bem devagar, percebeu que poderia, se quisesse, alcançar um espaço que jamais experimentara. Então, abriu os braços bem devagar. Subindo o queixo na altura da testa, devagar, percebeu que veria o mundo sob ângulos inéditos. Avançando o pé direito devagar, retrocedendo em seguida, agachando, torcendo, deslocando, tocando pedaços de ar que jamais tocara, descobriu coisas. O drama começou quando jogou a cabeça para trás de um jeito brusco, num solavanco, e sua perna esquerda levantou demais, rápido demais, e jogou as pontas dos dedos, num reflexo involuntário, mais longe do que jamais imaginara ir. A perna alcançou a altura inimaginada e, em seguida, traçou um passo largo no chão. No rápido descontrole, de duração ínfima, sentiu a tensão da corda, uma fisgada precisa, e lembrou-se da própria condição. Voltou a esperar algum estímulo, e não quis mais nada. Ao menos por um tempo. Torceu para, um dia, voltar a esquecer.

fechados

Como qualquer criança, eu também costumava confundir os nomes das coisas. Prefiro pensar assim, que minhas confusões eram sinais próprios de qualquer vidinha, e não traços pessoais que se transformaram com o tempo, mas nunca deixaram de existir. Quando via uma partida de basquete, chamava de tênis, e parava pra pensar, percebendo que o nome não encaixava. Não sou mais criança, dizem. Mas quando vejo você chegar em casa, com ar desajeitado de quem levou alguma da vida, e calado, e impenetrável, numa fechadura emperrada pelo tempo, talvez nosso tempo... Não sei. Nessas horas, continuo a trocar os sofás pelas poltronas.

necessários

É que ando desconfiando de muitas coisas. Ando desconfiando de certezas alheias, ainda mais daquelas que corroboram as minhas próprias certezas. Ando desconfiando até mesmo dos verbos, se eles anunciam alguma ação verdadeira, ou se anunciam apenas vontades, apenas projetos, e se anunciam algo que valha a pena ser anunciado. Ando desconfiando das intenções por trás dos verbos, ando desconfiando que os verbos estão programados com aquela obsolescência voraz que acompanha as máquinas contemporâneas. Ando desconfiando que é esta a razão do silêncio tanto me bastar. Ando desconfiando também do silêncio, se tem realmente me bastado, e se um dia algo me bastará tanto quanto o silêncio que talvez já não me baste. Ando desconfiando de tudo, de você também. Ando desconfiando de coisas que nunca desconfiei, se há mesmo verão, se houve mesmo primavera, se haverá mesmo um outono. Do inverno então, ando muito desconfiado. Ando desconfiado de mim, ando desconfiado de minha desconfiança, se sou mesmo capaz de desconfiar tanto assim. Ando desconfiado. Por isso, preciso não mais andar. Pelo menos por um tempo. Eu preciso desconfiar parado, na janela, para ver se a desconfiança desce a rua por inércia.




de tempestade

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de dor

O algoz iniciou uma nova rodada de torturas e o prisioneiro urrou. E foi aí que o Dudu desligou a televisão. Não que o Dudu seja sensível. É que nos últimos dias a paciência e o bom senso de Dudu têm sido testados pelos portais de notícias e pelas redes sociais, a ponto de Dudu cortar o fio de conexão com uma tesoura. Não aguentava mais opiniões descabidas. Não tolerava a intolerância. Por outro lado, não tolerava a censura e o policiamento praticados sem pudor. Saiu para a rua e a fuligem do vento, o sol encoberto, a água das poças, o calor do asfalto, o cheiro agradável de gasolina, o semáforo em perfeito funcionamento, o ronco dos motores, o espirro comportado de um mendigo, tudo o incomodou. É que a realidade vinha enfiando agulhas debaixo de suas unhas, mas ele não conseguia urrar.

conquistados

Ele cultivou a concisão das idéias, perseguiu a economia das palavras, garimpou a potencialidade das imagens, e então foi sumindo, sumindo, sumindo até conquistar a comunicação perfeita, sem ruídos, e tão múltipla quanto o mais enciclopédico dos livros. Agora comunica-se apenas, e apenas, pelo silêncio.

alterados

Foi descoberto pela polícia um aparelho que acelera os taxímetros. O taxímetro alterado corre um minuto mais rápido que o minuto do sol. O taxímetro alterado percorre uma distância maior que a dos metros deixados para trás. E o passageiro, condenado ao tempo e condenado ao espaço, paga mais caro por essa relação. A metáfora perfeita, aquela que tanto persigo, vem de bandeja na primeira página do jornal.

Eu frequentemente me pego burro. 
É quando fico mais inteligente.

cansados

Dois comprimidos contra insônia. Dois. Dois comprimidos fracos. E agora o despertador, e o sono ainda dentro de mim. E os pensamentos em rodamoinhos. E os desejos em sorrisos amarelos. E a fome, uma falta. Sem impulso, sem prazer. Sem fluxo, uma flutuação pesada em água quente. Meio barro, meio água.

Me deu até vontade de bater um cartão de ponto.

pensando

O entrevistado disse: como pode o Hitchcock sempre aparecer nos próprios filmes? E eu fiquei pensando, olha só que coisa: como um diretor pode não aparecer? Como?


grandes

Não fiz aquele mundo de promessas de ano-novo. Não fiz, não faço. Mas é que o ano, desde o primeiro dia, deu de me prometer o mundo. E eu dei de agradecer. Eu dei de aceitar.

atrasados

Espera um pouco, que eu já vou começar. E o café, e a água gelada. Peraí, só um pouquinho. E o jornal, e os blogs para ler. Chegando aí, aguenta mais um pouco. E a vontade de ir ao banheiro. Quase, quase. E a moça que limpa a casa, e o telefone, e a conta, e a obra no apartamento de cima e, e, e. E?



E?

eternos

Se a eternidade, como disse um, é o arquétipo do tempo, e se o tempo é, como disse outra, um instante a ser agarrado urgentemente, me flagro na seguinte situação: um caçador cavando fundo no inconsciente, à procura da imagem perfeita, segurando bem firme no rabicho da eternidade, indo, tentando ir, querendo ir.

indo

Eu vou roteirizar um filme. Eu vou compor uma canção. Eu vou reescrever uma peça. Eu vou pesquisar prum livro. Eu vou finalizar uma tela. Eu vou arriscar uma dança. Eu vou. Eu vou. Eu vou. E, numa dessas, nem volto.


de susto

O ponto final é uma vírgula encolhida no canto da frase, encolhida de cansaço, encolhida de pavor, encolhida num susto por ter percebido, no calor de uma reviravolta, que as histórias nunca acabam de verdade.

a limpo

Passa de ano. Passa café. Passa o texto. Passa roupa. Passa de uva. Passa dever. Passa recado. Passa a mão no que é dos outros. Depois, passa a mão na cabeça. E passa por cima. Passa do ponto. Passa direto. Passa a vez. E, então, passa a passar, sempre. E passa fome. Passa aperto. Passa remédio. Passa por cada uma. Mas, um dia, passa.

(hoje, dia vinte e nove de dezembro de dois mil e onze, eu, finalmente, acordei com quarenta anos)

felizes

E ela estava muito professora naquela tarde. Estava feliz.
Chorava por ter ensinado tanta coisa que não sabia.

alegres

Ligou a tv e assistiu a alegria enlatada, em nova embalagem, travestida de arte, versão luxo. O sentimento fast food, a poesia instantânea, meio nescau, ou tang, mistura pra bolo. O preço da beleza caiu junto com as últimas barreiras comerciais.



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presentes

Quando veio a angústia, começou a caminhar pelo apartamento. Foi de lá pra cá, e o inverso, variou os passos entre diagonais e curvas, dando a volta na mesa de jantar, indo até a varanda pelo vão à direita do sofá, e depois voltando pelo vão à esquerda, pulando o fio da luminária, e entrou e saiu da cozinha, acendeu e apagou as luzes dos banheiros, marcou o piso com a borracha do tênis. Num determinado segundo, um segundo curto, pedacinho miserável de tempo, notou a presença do cavalo. Lembrou dele sem ter esquecido, objeto de sempre, resto de família. Um cavalo de madeira, no chão, uma escultura rústica que chegava à altura de suas coxas. Olhou através das janelas, nenhum vizinho de frente na tocaia, nenhum curioso. Foi tudo num impulso, muito rápido: quando deu por si, já estava abraçado ao cavalo, um abraço forte e demorado. Se chorou, não sabe dizer. É quase certo que sim. Até então, só acreditara em deuses gigantes, nunca na epifania das pequenas coisas.

lúcidos

Ferro de passar. Saco de dormir. Máquina de escrever. Roupa de missa. Vestido de casamento. Bola de futebol. Lápis de olho. Bolsa de compras. Bolo de aniversário.

E quando me perguntam pra que servem os livros de ficção, eu gosto de responder que não servem pra nada, daí a utilidade. Resposta escutada, resposta adotada: arte não serve mesmo pra nada.

Assim, tem ferro de escrever, saco de casamento, máquina de aniversário, roupa de olho, vestido de compras, bola de missa, lápis de passar, bolsa de futebol, bolo de dormir. Ou.

revistos

Olhei para todos os lados, para cima, também para baixo, e vi  formigas carregando um sapo, raios de luz anunciando bobagens de poder, do alto de um morro carioca, e vi grandes espetáculos de entretenimento, musicais, coloridos, ensaiados à perfeição, vi brotar uma beleza sem fôlego de um bando de focas, espontâneas, e tantos azuis de céu, e quantos verdes de mar, e tantos ruídos que só podiam vir do além, e aquelas paisagens, e fogos, e roupas, e vi as cenas mais comoventes nos jornais, e também fora deles, nas esquinas, nos cafés, nos socorros sociais, a beleza das tragédias, e todo o resto, e tudo mais, vi tanto, vi muito, mas nada me espantou de verdade, e nada me surpreendeu muito porque, de fato, tudo o que vi foi previamente escolhido, e previamente editado, caçado, e tudo aquilo que vi já conhecia antes, de um jeito ou de outro, desde a primeira vez que abri os olhos. Nada: nada me surpreendeu. A não ser os livros, e os filmes, e as canções, e tudo que me veio misturado ao olhar do outro.



calados

O artista colocou a pintura num saguão onde, desde sempre, uma escultura clássica ocupava o centro. Declarou para a imprensa que a intenção era que as duas obras dialogassem. Mas ficou um silêncio. A escultura, acostumada à solidão, era meio caladona.

quentes

1 pinguim dançando rumba.
2 pinguins dançando rumba.
3 pinguins dançando rumba.
4 pinguins dançando rumba.
5 pinguins dançando rumba.
Mas, contando, ninguém acredita.

errados

As torradas queimaram e um cheiro tóxico tomou o apartamento. Foi preciso um pano no rosto, amarrado atrás, como a máscara de um bandido, para conseguir enfrentar a fumaça que vinha de dentro do forno. E, sem outras fatias de pão para torrar, raspou as camadas carbonizadas até ficar com duas folhinhas bem finas de pão. Passou bastante manteiga, para prevenir. A primeira fatia estava ruim, no começo. No fim estava aceitável. A segunda fatia já começou razoável, e terminou gostosa. Bem gostosa. A gente se acostuma.



infernais

Foi num cenário onde, mais do que em qualquer tempo, o valor de cada indivíduo é medido por quem o vê de fora, frequentemente tão longe da intimidade, tão longe das inspirações primeiras e das intenções ainda transparentes, em terras de feicibuques e mundos de caras e competições infantis por um lugar embaixo do refletor, que ele lembrou da máxima existencialista, lembrou que o inferno são os outros e, sendo os outros sua medida contemporânea, descobriu porque o mundo está assim, tão insuportavelmente infernal.

insuportáveis

# E por que você não tira um tempo sozinha e vai pra uma casa na praia?
# Ah, não. Não suporto.
# Você não gosta de praia?
# Não, eu não gosto de casa.

(diálogo roubado)

no cinema

E num domingo de dezembro, tanta gente solta na rua, bateu uma tristeza, e dei de ficar triste, me deu uma tristeza, e me entristeci e, então, fiquei bem e triste. E, sim, é melhor ser alegre que ser triste. Mas a tristeza dá o tom da minha alegria, e ela é genuína.  E quando foi diferente?

de fila

E, na fila da polícia federal, uns tantos de nós na batalha por um passaporte, pelo direito à viagem, ao encontro, pelo direito ao lado de lá das fronteiras, e um rapaz, um único, na espera mitigada, por ora, sentado ombro a ombro comigo, e um Neruda na mão esquerda, sem foto digital, nem carimbo oficial, lá longe.

TRADUZEM-SE SILÊNCIOS

exagerados

E não é que de um ano pra cá te deu a mania de exagerar nas exclamações? Será que o mundo tem te deixado ainda mais perplexo? Ou são essas coisas que você toma que aumentam a distância entre você e todo o resto? Distante, todo o resto. E um vale profundo no meio. É isso? Esse abismo, é o que te deixa tão exclamativo?

(pausa)

E não é que de um ano pra cá me deu essa mania de exagerar nas interrogações?

contrários

Como os filósofos, ele queria duvidar de tudo. Mas, na dúvida, nunca o faz.

estagnados

Foi dormir com medo de ter deixado a porta aberta (e o medo apareceu nos sonhos, disfarçado em um vendedor de facas que tremia as mãos), acordou com medo de ter perdido o compromisso, tomou corn flakes com medo do excesso de milho, lavou a louça com medo do detergente (que, diziam agora, envenenava, penetrava a pele e se espalhava pela corrente sanguínea), saiu com medo das nuvens escuras, parou na calçada com medo dos carros  em alta velocidade, atravessou com medo das bicicletas, entrou na agência dos correios com medo da greve, bebeu um refrigerante com medo dos gases, sentou num banco de praça e, com medo de se atrasar, levantou-se num impulso, e olhou para trás com medo de ter esquecido o livro, seguiu em frente com medo da dor que vinha sentindo nos joelhos, verificou as esquinas com medo de assalto e continuou o dia, assim mesmo, percebendo que, sim, o medo o empurrava para frente, mas não o deixava sair do lugar, e pressentia também algo de ruim se formando nas entranhas, no subterrâneo das artérias, e tinha medo disso, mesmo um pouco inconsciente, pois sua agressividade sempre fora contida ao extremo, por violências maiores, sutis, e ele sabia que aquilo se acumulava em algum lugar, e continuaria a se acumular, e que sempre precisaria eleger perigos e inventar inimigos para poder viver como uma pessoa normal, aparentemente sem medo algum.

(na realidade é tudo mentira)

apagados

Listou os acontecimentos com o seguinte cabeçalho: "Acontecimentos do domingo".
1- Compramos um novo roteador mas não conseguimos instalá-lo;
2- Ao verificar um fio na tomada perdi o equilíbrio e quebrei dois vasos presenteados por minha mãe;
3- Penduramos dois quadros, um ficou torto, o outro despencou;
4- A máquina de lavar louças vazou água;
5- O programa gravado na TV à cabo travou e não passou inteiro.
Depois, trocou o cabeçalho: "Acontecimentos da segunda".
Desistiu do domingo, foi dormir, e só quis acordar na sexta.

dezembros

Dezembro chegou e a velocidade já foi aumentando, como um sintoma grave, inescapável, automático que só, e as pessoas falando muito, planejando em voz alta, imprimindo uma alegria acelerada no corpo, na voz. Eu fico assustado, comecei a estranhar dezembro de muitos anos pra cá. Dezembro me exila, me deixa ainda mais apartado do mundo, e eu olho no rosto das pessoas para ver se elas não sentem o mesmo, e se estão fingindo presentes, fingindo abraços, fingindo saudade. Que coisa mais irritantemente coletiva é dezembro. Eu assisto dezembro tomando café na janela. As chuvas chegando descompensadas e formando um rio bravo na rua. E eu querendo que o rio fosse ao contrário, nascesse na foz e acabasse na nascente, como um funil, ou o mar inteiro escoando num ralo, e toda aquela força virasse potência outra vez, o barulho fosse silêncio carregado de idéias e sentido. Eu quero potência, por favor. Eu quero a carne intensa de dezembro, mas com casca de janeiro. Pode ser?





consumados

Dona Maria é de um tempo em que consumir era ação própria da sobreviência. É o que ela mesmo anda dizendo, "sou de um tempo", como se fosse capaz de ser do passado, como se o presente não estivesse sempre ali, consumindo suas horas. Quando era menina, na fazenda, a vela consumia a cera em troca de luz, que sobrevivia na fragilidade e iluminava com sombras o quartinho. A mãe reclamava da vida dizendo consumir-se nos trabalhos da casa, e recebia em troca a sobrevivência dos filhos. Já moça, na cidade, Maria descobriu que consumir podia ser um direito. Não era sobrevivência, era luxo. Ganhava o próprio dinheiro,  e comprava as coisas que a infância pedia. Consumir era garantir momentos de alívio, compensava o passado, encorajava o futuro, era prêmio pelo trabalho  realizado. Ela consumia chocolate, consumia chá, consumia coca-cola. Mas não consumia livros: lia-os, guardava as idéias na cabeça e as palavras impressas na estante, para serem relidos um dia pelos filhos. Já senhora, casada, mãe de suas mariazinhas, dona Maria estranha o mundo. Consumir, palavra feia, é verbo, é objeto e é quase sujeito,  é palavra de ordem, destino para a vida. Seus filhos, agora, consomem-se no trabalho para, no fim, consumir as coisas e garantir que mais coisas serão consumidas. Consomem móveis, quadros, brinquedos de adulto, e até os livros  têm prazo de validade no computador. Dona Maria está assustada: leu no jornal que o país precisa consumir mais, pois assim garantirá o futuro. Consumir é igual a sobreviver?, filosofou dona Maria, sem ouvir resposta. E jogou o jornal no lixo, junto com uma panela que não prestava mais, com o humor neutralizado. Consumir virou dever e, como todo dever imposto, virou castigo. Foi o que dona Maria concluiu.

esperados

Eu esperei tanto a viagem. Ela veio, rápida, e acabou. Fiquei órfão da viagem, deu aquela tristeza que eu gosto de achar que é só minha, embora finja que não gosto. Então esperei a mudança. Veio, deu trabalho, preencheu meus dias, terminou: órfão outra vez. Esperei a visita e, órfão, esperei a festa. Órfão, órfão. Estou órfão de viagem, de mudança, de visita, de festa. Estou muito órfão. Agora, espero a minha próxima orfandade.

Eu. Eu somo. Agora, somos. Nós.





depressões: muitas, embora irmãs. a minha: depressão chama-piloto. fraca, persistente. perene, bruxuleante. fábrica de sombras, sim. mas também faz luz. depressões: muitas, embora irmãs. a minha: depressão chama-piloto. fraca, persistente. perene, bruxuleante. fábrica de sombras, sim. mas também faz luz. depressões: muitas, embora irmãs. a minha: depressão chama-piloto. fraca, persistente. perene, bruxuleante. fábrica de sombras, sim. mas também faz luz. depressões: muitas, embora irmãs. a minha: depressão chama-piloto. fraca, persistente. perene, bruxuleante. fábrica de sombras, sim. mas também faz luz. depressões: muitas, embora irmãs. a min (depressão do tipo woody allen)

de descanso

Zé foi um escritor de estilo único, pessoal ao extremo. Era seco e poético ao mesmo tempo. Mas teve aquela preguiça de escrever. E também teve aquela melancolia paralisante. A melancolia também o impediu de pintar um quadro que imaginou, que o perseguiu desde a infância. As tintas todas empedradas, compradas às dúzias por ocasião de impulsos criativos, os pincéis ressecados e que acabaram limpando os cantos dos móveis. E todas aquelas aulas de canto não contratadas. E o lindo projeto arquitetônico esquecido no fundo de uma biblioteca nunca frequentada, à direita de um corredor nunca pisado de uma universidade qualquer. As braçadas adiadas na piscina. O mapa de viagem pegando mofo e poeira na parte de cima do armário preto. Mas talvez fosse a melancolia sua desculpa, seu álibi constante, nada além de um porquê dado às perguntas de amigos. O armário preto agora está vazio, pega chuva no topo de uma caçamba. É que deu cupim, e as gavetas estão viradas para baixo, por causa da campanha contra os mosquitos. E Zé se aposentou, e ganhou um relógio de ouro e uma medalha bonita da empresa de seguros onde trabalhou desde os dezessete. Ou foi aos dezoito?

escuros

E a velha de vestido vermelho pediu um chocolate gelado, e pediu alto, para quem pudesse ouvir. E eu, pouco alerta naquela manhã, ouvi.
- Um chocolate frio?
- Não. Chocolate gelado. E bem clarinho. Se vier forte mando voltar.
Pedido anotado, acompanhei. Cinco minutos e voltou o garçom com o copo alto de chocolate. Gelado? Não sabia. Mas escuro, suficientemente escuro. E o garçom deixou o copo na mesa, olhando a velha de cima, contando, com o olhar, que sabia muito bem do erro. Mas arriscou, e não perguntou nada, afastou-se.
A velha acompanhou o garçom sem desviar o olhar. O garçom atendendo outros clientes, mas vendo a velha, olhando de lado. E a velha dizia muita coisa, mas não falou nada, não acenou, não chamou de volta, não reclamou do chocolate escuro, e talvez frio, apenas frio.
Virando-se, comentou para as câmeras, sabendo-se dona do espetáculo, conhecendo meu papel de platéia.
- O pior incompetente é o consciente.

esquisitos

Antônio gosta de levantar o dedo indicador enquanto anda para esbarrar nas grades dos edifícios. Rui costuma quicar as pontas dos pés depois de atravessar uma rua, primeiro a esquerda, depois a direita. Henrique, enquanto conversa, sempre imagina como seria seu interlocutor se não tivesse olhos ou boca. Bernardo sempre escolhe uma pessoa no ônibus para vigiar até o fim da viagem, e fixa seu olhar sobre ela. Frederico tem o vício de fazer coisas esquisitas mas o que gosta mesmo é de se apresentar com outros nomes.


Me deu uma vontade de ficar sozinho.

   Você leu essa aqui? #
   Desculpe, mas... eu queria ficar um pouco sozinho. #
   Tá bom. Você quer que eu saia? #
   Não precisa. É só me deixar sozinho, só um pouco. #

E foi tão bom ficar sozinho do lado dele.

entre instalações

Uma grande tela, dessas que vão do teto ao chão, retrata uma provável família em um fim de semana de descanso na praia. E traços toscos, pinceladas primitivas. Um vídeo mostra uma multidão atravessando a rua por uma galeria subterrânea, neve na entrada, neve espalhada, difícil. Imagem sem cor, filtro opaco. Em uma das salas escuras há um vídeo contínuo de uma escavadeira derrubando e empurrando terra e entulhos em um canteiro de obras. Detalhes, recortes. E efeitos, distorções, lacunas, imagens incríveis, e as novas tecnologias embaralhadas com as antigas. A distorção e a técnica primitiva traduzindo o contemporâneo, o hiperreal, o entulho da banalidade. Sem grandes portraits, os momentos fabulosos, a paisagem de tirar fôlego, protesto político estufado de estética. Sem mais. Já, lá fora, o mundo é um grande espetáculo que me cansa os olhos e o peito. Só o detalhe, só o ordinário pode agora nos salvar, nem que seja um pouquinho, nem que seja uma tentativa, um fio de voz.

verdes

Bebe o chá verde na caneca, a temperatura da água antes de ferver, água turva de um verde grosso, e sente  algo do qual não enxerga os sinais há anos. Sorvendo cada gota do chá, em uma das três canecas diárias, acredita nos princípios ativos liberados pelo calor, princípios cheios de promessas, e acredita poder sentir tais princípios muito bem ativados num gosto azedo, e também amargo, concentrados lá no fundo da garganta. É estranho, mas o que sente é fé, numa forma líquida e quente.

sem saber

O mostrador do elevador completou um mês de quebrado. Agora você nunca sabe em que andar a caixa está, ou se vai pra cima, ou se está parada. O mostrador mostra quinze e a porta se abre no térreo. Você entra na caixa que sobe e descobre que vai descer até a garagem. O mostrador virou assunto, virou conversa da primeira hora e virou piada dos porteiros. E disseram que a síndica, em conluio com o zelador, fingiu que chamou o técnico, ou fez que não viu. A vida no prédio ficou um pouco mais divertida, mas pouca gente percebe, agora, depois de um mês. O mistério e a surpresa logo de manhã cedo entraram rápido no cotidiano. Quando consertarem o mostrador, certeza: notarão um ou dois sorrisos subtraídos do dia, a falta de um motivo para reclamar com bom humor, o fim da conversa puxada com os vizinhos de poucas palavras. Voltarão, talvez, a falar da chuva ou da necessidade urgente de pintura da fachada. Conversarão algum tempo sobre o conserto do mostrador, sobre o alívio que sentiram. E voltarão à funcionalidade dos números, à confiança das setas, à previsibilidade das engrenagens, e dirão: finalmente consertaram essa bosta.

Às vezes é difícil.
As minhas, as minhas vezes, estas quase sempre são.
Difíceis: as minhas, as minhas vezes.
Só às vezes deixam de ser.
Às vezes são só as minhas vezes.
Outras vezes, só as outras.
Assim, melhor: alternadas as vezes.
Mas só às vezes.

comigo

- Como você está?
- Eu preferia não estar.
- Como é isso?
- Simplesmente não é.
- Apático?
- Hã?
- Apático?

(pausa)

- Hã?

no ônibus

Em sua mão direita sentia o papel amolecer com o suor. Sempre demais, o suor. Segundo o marido, era o sinal mais forte de sua incompatibilidade com o lugar de nascimento. Agora sentia-se numa incompatibilidade crescente. O tempo passando, o papel dissolvido aos poucos, a impossibilidade da leitura. Os óculos, esquecidos sobre a mesa da sala, eram o primeiro dos sinais, o primeiro de tantos. Aconteceu o mesmo com o pai, o mesmo com a avó. Planejou pedir para o rapaz sentado no banco à sua frente para que lesse o bilhete, ou o que restava dele. Mas lembrou que de pouco adiantaria. Saber para esquecer? O capuz do casaco do rapaz pendia diante dela, como uma alternativa. Levantou-se e, com a máxima rapidez que conseguia imprimir, depositou o papel amassado no capuz e acionou a campainha para a próxima parada. Ninguém viu e, antes que chegasse em casa, provavelmente já teria esquecido de tudo.

inadequados

O médico perguntou:
Como está se sentindo?
Ela respondeu:
Doutor, sinto-me uma ameixa.
Em tempo, o médico refreou qualquer reação. Deixou uma pausa e:
Dona Élida, não estamos na época de ameixas.

Ao final da consulta, dona Élida se abrigou num canto e, antes de marcar o retorno, secou algumas lágrimas. Sentia-se deslocada, de tudo.

Safado: depois que a paixão morreu começou a reparar que aquele apelido, palavra que até poucos dias o fazia estremecer, era apenas um jeito que ela inventara de chamar todos os caras que conhecia, incluindo o próprio irmão.

mudos

Do outro lado dos trilhos, a mulher que não o deixava dormir. Pensava naquela mulher a ponto de não conseguir trabalhar, e inventava memorandos e e-mails urgentes só para poder parar os olhos na tela do computador e imaginar o que queria ver, o que tanto desejava. Queria confessar cada segundo gasto com ela, mas a distância dos trilhos era maior do que a física, indicava também que seguiriam caminhos opostos durante o dia, apesar das casas vizinhas. Sua confissão, ali, apenas um tchauzinho e algumas sobrancelhas levantadas. Nada além disso. Dois surdos-mudos conversavam freneticamente, um a seu lado, outro ao lado dela. Sorriam e, vez ou outra, davam sinais de discordância, para depois voltar a sorrir. Dois amigos, um casal? Sentiu inveja daqueles dois, lamentou ter apenas as palavras para poder gritar.

de desordem

Ele mesmo nunca abriu mão de acusar o próprio pessimismo. E era mesmo uma acusação, pois havia culpa, mesmo considerando os tempos de otimismo uma praga, mesmo gostando de imprecar, de estalar o canto da boca com ares de oráculo, sabendo-se tão fora de mão em relação aos outros. Então, saiu para saber do diagnóstico. Quando voltou, trouxe a amiga ao lado, numa vigília silenciosa desde o consultório médico. A amiga era afetuosa e, com a duração da amizade, aprendera a ler as filigranas de um homem deliciosamente atormentado. Viu que a pia da cozinha era uma pilha imensa de pratos. Mas também viu que, ali, uma certa ousadia otimista se manifestara. A amiga sabia que aquele homem nunca saía de casa sem cuidar da ordem e da limpeza. Os pratos, as panelas... tudo indicava uma expectativa positiva, a espera por uma boa notícia que garantisse a disposição de enfrentar toda a sujeira na volta. Molhou a esponja com detergente e assumiu a pilha. Regou a tristeza do amigo com água e sabão, precisava livrá-lo da decepção de encarar a pequena onda de otimismo inocente, pueril. Aquela pilha de pratos era todo o otimismo que poderia manifestar. E como seria de agora em diante?


reticentes

Lá fora: cai a temperatura, cai o dólar, cai a bolsa de Nova York. (...) Aqui dentro: um rapaz sustenta o silêncio, um choro ausente, um porta-retratos. (...) Aqui ao lado: o cachorro late um pedido fino e distorcido. (...) Lá embaixo: uma menina rói o esparadrapo do dedo e olha o telefone, que não toca. (...) Lá em cima: a velha sentinela a paisagem da varanda, cheia de poucas impressões, e costura as meias, e constrói a certeza de que tudo muda, tudo vai, e a temperatura há de subir, meu filho, na graça de algum deus.

Ela, sotaque pernambucano:
Por favor, uma informação. Essa avenida é paulista?
Ele, sotaque carioca:
É, sim. Nascida e crescida.

na rua

E surgiu na estação em frente ao parque para se integrar à multidão que frequentava a avenida, apesar do frio, apesar dos crimes, apesar do capítulo da novela. Era sexta-feira, os sujeitos se fortaleciam em suas potencialidades de sujeitos, sujeitavam-se uns aos outros, influenciavam-se em suas identidades de fim de semana recém reconquistadas. Os sujeitos se irmanavam pelo frio, e marchavam uma marcha quente. A avenida ardia. Tomou uma taça de vinho duvidoso, não para se aquecer, mas querendo dilatar um espaço para a paixão que ameaçava invadir. A avenida era uma paixão só.


vermelhos

Meu nome é André, não sei o seu. Mas foi você que me humilhou na fila do caixa eletrônico. Não importa, agora, dissecar as palavras ou seus gestos humilhantes. Você me humilhou, e foi isso. Minha mão sardenta comichou, sabendo da arma que carrego na bolsa. Mas não me tornei estatística e, domado e sardento, não tomei a arma na mão, não atirei. Humilhado, em estado crescente de humilhação, entrei num cinema de rua e precisei de um café. Também precisei de uma fatia de bolo. Pedi o café e o bolo para uma moça vesga e muito bonitinha. A beleza dela era daquelas consensuais, óbvias, caso contrário não a teria percebido: sentia-me  humilhado e cego e a humilhação gritava na minha respiração ofegante, na borda úmida e sardenta dos meus olhos. A moça vesga registrou meu pedido e disse que tinha dado nove e trinta. Eu passei meu cartão e ela me perguntou se era débito ou crédito. Eu engoli seco, queria bolo, queria café, estava nervoso, e humilhado, e não queria saber de opções. As opções tornam-se perigosas em momentos assim, mas eu disse crédito. E ela disse que crédito só acima de dez reais. Eu olhei a moça vesga e ela percebeu meu grito ofegante e úmido, pronto para sair. Então para quê as opções quando é o mundo que determina tudo por aqui? Não teve comichão, não teve relutância, não teve nada. Não teve opção. Teve um tiro no olho vesgo da moça e uma sequência de gritos de terror. Meu nome é André e não brinque comigo agora, pois ainda carrego uma arma nas mãos, a cidade me enlouquece e minha camiseta traz respingos vermelhos na parte da frente. E eu ainda sou capaz de te reconhecer.

passageiros

Assim era o cenário descrito no livro das passagens: uma rua extensa e estreita com lojas dos dois lados. As lojas abriam às dez da manhã e os vendedores tratavam de expor as mercadorias penduradas em ganchos, facilmente recolhíveis pelos consumidores potenciais. Eram tantas as mercadorias que o corredor parecia ter metade do espaço original, e alguns pedestres precisavam se curvar para ultrapassar os mais entretidos. Não havia porque se preocupar com furtos, não havia para onde fugir em velocidade. A rua era coberta por um telhado de vidro e não sei, não sei mesmo, se o objetivo era proteger os pedestres ou as mercadorias. No fim da rua, uma avenida transversa, larga, com muitos carros indo e voltando, e sem calçadas em nenhum dos lados. A avenida parecia ter apenas um objetivo: represar todas aquelas pessoas para dentro da rua das lojas. Os semáforos da avenida davam vez aos transeuntes de dez em dez minutos e seu tempo de trégua durava um atravessar jovem e acelerado, justo, justo. O livro das passagens está à venda em uma única livraria localizada nesta mesma rua, número 561, sobreloja. Aberta aos domingos.

acelerados

Duílio percebeu que até certa idade cuidou de preencher lacunas, e que lacunas outras foram se abrindo no percurso, lacunas lacradas ao preenchimento, e agora tem medo de se transformar numa grande página em branco, e por isso tenta aumentar a velocidade dos trabalhos e procura ter o lápis sempre apontado. Corre, Duílio, corre.

de compras

# Posso enviar a proposta para o senhor ainda hoje.
# Muito bem, eu agradeço.
# O senhor trabalha com e-mail?
# Não, sou advogado.

de esperança

Decidiu relevar o silêncio persistente dos amigos. Sua paixão já descendia e dava sinais de luz: não cobraria posições de quem quer que fosse, nem pediria mais por notícias do ex-namorado, sempre falsas ou pela metade. Os e-mails não respondidos, disparados em intervalos cada hora mais curtos, geraram dúvida por algum tempo. Mas como extrair alguma conclusão sobre os e-mails quando ela mesmo, acidentalmente, colocara o endereço de conhecidos na lista de mensagens indesejadas? Poderia, sim, ser um caso de acidente, uma inabilidade com os computadores. Sim, um acidente. Não se considerava inconveniente a ponto de merecer o status de spam. Além disso, os provedores não são infalíveis, e conhecera suas limitações em um caso grande no trabalho, quando alguns funcionários haviam sido demitidos injustamente. Mas, mesmo com os sinais truncados, se convenceu um pouco mais do pior, tentou ser realista. As mensagens no celular, também não respondidas, ainda a incomodavam um pouco. Mas quando finalmente se convencia de que não era bem vinda, lembrava também da briga com mamãe, que começara com uma série de mensagens não registradas na caixa postal. E torpedos? Sim, extraviáveis. E secretárias eletrônicas? Fósseis. E bilhetes? Perdidos, possivelmente. As mensagens pelo facebook foram as únicas que não encontraram respaldo em  racionalizações. Foram tantos os recados privados e tantos os acenos públicos... O facebook foi, no fim, um elemento definitivo no arrefecimento do incêndio que agora já tomava ares de cinza. Mas aquela notícia sobre o invasores virtuais que bagunçavam a vida de usuários em todo o mundo... Aquela notícia sobre a falibilidade das redes sociais lhe acendeu uma brasa verde. Meu deus, então era possível. Tentou esquecer da noticia e até conseguiu por alguns dias. Mas se percebeu, noite dessas, defendendo a bandeira dos hackers em um almoço com as irmãs. Ah, os hackers, esses heróis pós modernos. Foi o que ela disse.

ONDE É QUE FICAM OS LADOS QUANDO TODO MUNDO QUER SER O CENTRO?
ONDE QUE OS LADOS QUANDO TODO MUNDO O CENTRO?
ONDE OS LADOS QUANDO TODO MUNDO O CENTRO?
ONDE LADOS QUANDO TODO MUNDO CENTRO?
LADOS TODO MUNDO CENTRO?
LADOS CENTRO?
CENTRO

declarados

Quando deixei você em casa, você saiu do carro e agradeceu pela janela. Esperei você passar pelo portão e acompanhei seus passos tranquilos, sem nenhuma pressa, até você desaparecer atrás da porta de vidro. Não sei se foram os passos explicitamente leves ou o fato de você não ter olhado para trás, mas posso dizer com segurança que, ali, tudo se estabeleceu entre nós, em menos de trinta segundos.



será que vai chover?

cinzentos

- Prontinho, desculpe a demora. Mais um café?
- Não, obrigada.
- Não vai querer mais nada?
- Por enquanto não.
- É que a senhora estava me olhando, então eu pensei.
- É que você é bonito.



será que vai?

com novidade

- Raspou?
- É...
- Mudar a cara às vezes é bom.
- Pois é...
- É trabalho?
- Trabalho?
- Peça nova?
- Pode ser. Dessas que a vida prega, sabe?



vai?

precários

Olhou para a fruteira e viu que as laranjas se empilhavam de um jeito muito curioso. Na ponta dos pés, se aproximou da janela lentamente, cortou a circulação de qualquer vento. Aquele equilíbrio era um mistério, era precário, precisava ser protegido. Voltou para a cama, silenciosa. E até o ar era frágil, por isso suspirou com economia. Agora, esticaria mais uma horinha de refúgio.

de convivência

- Quero dizer que me sinto pessoalmente atingido pelo que você disse sobre a minha banda de rock favorita.
- Não se trata sequer de uma banda de rock, mas de um grupo de adultos infantilizados fabricado na nuvem eletrônica, um bando de idiotas que teve a sorte de ser inventado antes mesmo de existir.
- É a sua opinião.
- É a opinião de quem foi forçado a escutá-los durante o fim de semana inteiro.
- Isso me atingiu pessoalmente e me dá vontade de chorar.
- Bem vindo ao clube dos que escutam o que não gostam.





de chico

A primeira coisa que fez ao sair do banheiro, toalha enrolada na cintura, cabelo úmido, cheirinho de sabonete, foi ligar a caixa do ipod com o controle remoto.
E a caixa do ipod cuspiu essa: ai, coração, não dá pra falar muito não...
Cantou alto até o fim. Pediu para repetir. Repetiu.
E então veio o grito da rua: desce, só falta você.
Abriu a janela e respondeu: não vou, esta noite eu tô de Chico.

áridos

E se observo uma paisagem árida mas não gasto a merecida atenção com os detalhes, tudo  parece ser de uma cor só. Mas algo diz que esta cor da aridez é uma cor de camuflagem e esconde cores outras que apenas se somam e se mesclam, seguem descolorindo-se em conjunto. Então, olhando com o merecido cuidado, o estado de aridez é possivelmente colorido. As cores da aridez podem ser: marrom claro, bege, ocre, alaranjado, e outras, em tons variados, ricos, mas em disfarce mútuo. Elas não se anulam, elas se compreendem. A cor da aridez, incluindo esta aridez que vivo agora sem alardes, é uma soma de cores potenciais que, sabendo-se impossíveis para o momento, compreendem-se em um único e discreto tom.



hoje to tao feliz que poderia comer o dobro do que comi, podeqia sair correndo semotivo, poderi arrumar meu quarto poderia subir na mesa e pular, poderiaapenas dormr profundamente, e essa dorga desse teclado n~ao ajuda, maldito aparelo qu^

assépticos

Lu limpa os tapetes com Vanish Karpet porque sabe que a sujeira anda escondida entre as fibras, lava as mãos com Dettol porque sabe que a sujeira pode não ter cor, enxagua a boca com Listerine porque sabe que a sujeira se infiltra no corpo, e mesmo na mente, e mesmo no espírito, e também usa Veja Limpeza Pesada, e Omo Multiação Bactericida, e o alcool gel que o farmacêutico indicou, e também reza muito, apesar de ter a impressão miúda de que Jesus já voltou e tem um nome de raiz e anda limpinho e cheiroso em algum lugar por perto. Ela quase pode sentir o cheiro, mas não, não mais.



de malu

Quando lembra da Malu, CS  escuta uma música, saudade com trilha sonora. Malu foi sua amizade inesperada, amiga de depressão, veio descida do Olimpo. Malu era uma garota polêmica, como todo adolescente popular. Um dia, Malu olhou para o limbo, e viu o menino que transitava entre os dois mundos, o popular e o silencioso, mas não era tão percebido. CS ficou amigo de Malu, ou o contrário, e apaixonou-se por ela, e desapaixonou-se por ela, e irmanaram-se, até o dia em que CS disse para Malu, ingrato: teus olhos perderam o brilho pra mim. Malu passou. Mas hoje, quando CS põe a mão sobre o ombro de alguém, e quando, num intervalo de antipatia, simplesmente acolhe, Malu é um pedaço de alguém que esse alguém vê no fundo de seus olhos. Esse alguém toma Malu por CS, mas nem desconfia.

E esticava os dias num espreguiçar longo, vadio e curativo, com a paciência beirando os limites; e boiava, boiava, mas no sentido de boi, entenda, não no sentido de bóia.

invertidos

Vado confere o rosto três vezes ao dia, logo após as refeições. Checa os cabelos a qualquer momento, qualquer porta de vidro, qualquer espelho de oportunidade. Tela de computador. Poça d'água. O espelho retrovisor jogado para a esquerda. O mundo é um palíndromo aos olhos de Vado e, mesmo depois de tanto tempo, ele ainda confunde o d com o b, pois tem pressa.

Verbos que poderiam existir.
Beatar.
Eu beato,
(e tu beatas, e ele beata...)
Modo de ser do beato, ação típica de um beato.
(diferente da ação de beatificar, que é bem mais difícil de realizar, dependendo do candidato).

pingados

No primeiro dia de frio intenso do inverno de 1998, em São Paulo, capital, por volta das 8 da manhã, Isadora atravessou a rua com as mãos espalmadas junto ao corpo, esfregava o forro do bolso da calça  contra a coxa, saltava as poças com uma abertura econômica de pernas, pensando no atraso e na poluição que já encrostava o céu de cinza claro, e entrou na padaria. E pediu um café com um pingo de leite, mas leite frio, não, quente, que hoje não vai dar. Notou imediatamente, a seu lado, os ombros largos quase debruçados sobre sua altura encolhida, o moletom de zíper fechado até o pescoço, os olhos negros de café puro, e o reconhecimento demorou apenas um, dois, três: era Deus, ali, cedinho. E Deus disse: o pão de queijo está muito bom e acabou de sair. Isadora pensou em responder mas, como sempre lhe acontecia na presença de Deus, a voz sumiu e só deu um aceno vago, de longe: ah... E Deus se foi, deixou uma pilha de moedas generosas ao lado do prato. O moço atrás do balcão já esperava o pedido, olhava Isadora com um então. E Isadora disse: o de sempre. E o de sempre era um pão na chapa sem prensa. Isadora ainda se orgulha de seu ateísmo encharcado de manteiga e nem no inverno abre mão de suas manhãs rotineiras. O máximo que consegue fazer é, ainda hoje, trocar a temperatura dos pingos de leite. Só isso.

O Rafa, que nasceu com um senso de humor duvidoso e vive um relacionameto estável com aquela violoncelista mexicana, ficou indeciso sobre o quê responder quando chamado a escolher sua música favorita. Respondeu assim: nacional ou estrangeira?