E um artista esbarrou no outro e disse: que merda.
Mas... Mas que merda!
Ele não compreendia o mundo, e xingava o mundo por isso.
E viu que o outro também não entendia nada, mas tinha pistas.
Ora, ele também tinha as dele.
Trocaram as pistas e resolveram fazer merda juntos.
Agora, não param de fazer merda.
E gritam um para o outro: merda pra você!
de merda
ajeitados
A corrida vai passar aqui na porta de casa, e ele prepara a casa, arruma, e deixa as janelas abertas. Corre pra arrumar o quarto. Corre pra arrumar a cozinha. Corre pra arrumar a sala. E corre tanto, e arruma tanto, que a corrida passa, ele não viu. E agora lembra que o tempo também corre. E diz assim pra mim: preciso arrumar tempo.
amarelados
no canto
Eu não quero atrapalhar. Não, não, não. Eu fico ali fora, não precisa nem levantar. Tem uma mesa ali no pátio, eu vou ficar ali, no canto, vou ficar encantado, esperando você. Vê se não demora.
de mariana
Quando a Mariana encontrou a outra Mariana, aconteceu como um soco, foi tudo de uma vez. A Mariana e a Mariana, juntas, não eram duas Marianas, não se somavam. Não: era Mariana ao quadrado.
não tem dia perfeito
(...)
infantis
Eu não quero ser criancinha. Que precisa de birra, que precisa de guias, que é cruel fora da medida. Se não for pedir muito, quero poder olhar você sem pudor, abraçar você com gratuidade, sorrir só quando quero sorrir. Pra você, pra tudo: eu quero ser criançona.
mortos
escritos
Escrevendo, escrevendo, escrevendo. Imagina uma frase e coloca na tela. E escreve. Quando vê, repetiu a frase lá na frente. E é bom. Escreve, escreve. Segue preenchendo a página. Escreve, escreve. E, se parar para pensar, está procurando um jeito de encaixar a frase outra vez. E encaixa. E repetiu. E fez sentido. Três vezes, melhor que duas. Sua literatura é ímpar.
relativos
Banho quente é um perigo para a pele, é o que ela diz. Banho quente é ruim para o cabelo. Banho quente não fortalece a imunidade. Banho quente gripa, amolece, gasta água, enferruja tudo. Mas banho quente é bom.
é um inferno, não paro de andar
de vigília
contados
Um conto. Dois contos. Três contos. Leu, leu, leu. No final, rico, adormeceu. Acordou guloso. Mais um conto, dois contos, três, quatro, cinco contos. Não dava conto, ficou por conto, o conto não fechava, nem te conto. Conto mais, conto até vinte. E vai por aí, até dormir outra vez.
de mudança
Churrasqueira na varanda: agora vai promover festa, vai convidar os amigos. Pista de atletismo privativa: agora vai correr em segurança, vai emagrecer e ficar bem disposto. Piscina coberta: agora vai nadar no inverno, vai ficar condicionado. Segurança 24 horas: agora vai se sentir seguro 24 horas. O horizonte aberto desde a varanda: agora, agora, agora. Agora vai abrir as caixas, vai desembrulhar, vai encher as estantes de coisas da outra casa, e da outra, e da casa dos pais, e dos avós. Não, agora não: parquinho infantil, jardim com orquidário, espaço gourmet.
de fuga
zerados
desencontrados
Marcaram um encontro mas nenhum dos dois foi. Souberam, anos depois, do sucesso um do outro. E tentaram um novo encontro, um encontro casual. Planejaram, contactaram, vigiaram. Mas sempre há o acaso e, por acaso, não deu. Descobriram que nem sempre o acaso trabalha a favor. O acaso é fruto de uma coleção de acontecimentos, também eles influenciados pelo acaso, e assim por diante. O acaso agradece a força mas informa que nasce, também, do acaso.
em xeque
E enviavam e-mails, telefonavam todos os dias, batiam à minha porta, escreviam nas portas dos reservados, em colunas de jornais, em manifestos abertos, encenavam a questão nos palcos, gravavam depoimentos, até cartas escritas à mão mandavam. Diziam assim: tome uma posição. E eu pergunto: tem em comprimido?
velados
acuados
E disseram isso: tudo tem sempre dois lados. Dois lados. Ela escutou quieta, no canto da sala, um pouco cansada dos atritos não verbalizados, cansada da dificuldade que tinha em cruzar as próprias fronteiras, em romper o limite com o outro, chegar junto, como se diz, e decidiu que permaneceria mesmo era do lado de cá.
com música
Um filósofo, muito polêmico em vida, ainda polêmico, recomendava que se dançasse uma vez por dia, coisa de filósofo embrenhado em vida prática, coisa de filósofo sabido. Uma dançarina, muito amada em vida, idolatrada ainda, alertava que estaríamos perdidos caso não dançassemos, não dançassemos, assim, duas vezes, dada a gravidade das coisas. Então, resolvi dançar. E dancei. É fácil, e funciona.
insones
sincrônicos
órfãos
só
engarrafados
prescritos
E as aventuras de dona Rosa continuam. Dona Rosa adora enxergar sua vida como uma grande aventura e conta tudo o que acontece pelo telefone. Conta para as filhas, para o filho, para a tia preferida, para a ex-vizinha que foi morar em Campos, para a irmã já caduca. Ontem, por exemplo, dona Rosa foi a uma farmácia de manipulação pedir para fazer um xampú. A mocinha do balcão pediu a receita mas dona Rosa não tinha mais. Mas é um xampú inofensivo, vende igualzinho na drogaria da esquina, é que eu prefiro o cheiro do de vocês. Mas, dona Rosa, eu preciso de receita. Então dona Rosa entendeu que precisava ir a um dermatologista e conseguir a receita do xampú, mesmo com o xampú vendendo na esquina. Dona Rosa agradeceu, aborrecida. Passou na drogaria e comprou um calmante que não precisava de receita, um fraquinho, um calmantezinho. Chegou em casa e tomou o calmantezinho, misturou com o meio lexotan de sempre, que o filho arranjava de graça. Deitou na cama mais cedo e pensou em ligar para a irmã caduca e contar a história. Mas dormiu antes, sem lavar a cabeça.
previsíveis
Toda essa história de prever o nascente e prever o poente, e as marés e as temperaturas. Faz o caos ficar um pouco mais controlado, aparentemente. E isso acalmava dona Rosa. Sentia-se serena lendo a segunda página do caderno cotidiano, todos os dias, todos os dias. Então as marés virão assim? Então o frio chegará a tanto? Sentia uma inveja pequena da ousadia do frio, da ousadia do calor, da natureza bem comportada mas com impulsos de rebeldia. Pequenas rebeldias. Que linda, a natureza, enquanto aguava as plantas no parapeito. Bonita, a natureza, enquanto colhia cebolinha no quintal. Mas ontem dona Rosa esqueceu de vedar a fresta alta da porta da frente. Entrou vento encanado, e ela sabia que o tempo viraria. Mas, mesmo sabendo, o vento entrou e levou o jornal embora, antes mesmo de dona Rosa ler a previsão do tempo em Washington d.c. Para essas horas, um chá bem forte e meio lexotan. Mais cedo para a cama, dona Rosa.
de anamnese
# Os olhos estão vermelhos?
# Não sei. Me diz você.
# Olhos vermelhos. Lacrimejando?
# Não. Não por isso.
# Dor nas articulações?
# Sempre. Não sou bem articulado, mas você sabe que tento.
# Vamos focar? Eu tenho outras coisas para fazer além de brincar de médico.
# Pena. Vá em frente.
# Coceira?
# Coceira.
# Corisa?
# Não, corisa não.
# Deixa ver. Três, quatro, cinco de dez sintomas. Devia ter pelo menos seis.
# Devia, é?
# Quero dizer, se você estivesse doente. Cinco, você tirou cinco.
# Raspando. Me faz lembrar do colégio. Lembra?
# Mas você precisa se cuidar.
# Cinco sintomas tá bom. Continuo um sujeito abaixo da média.
# Tem que ver essa coceira. Não é pulga do Adolph?
# O Adolph é a coisa mais limpa daquela casa. Isso não mudou.
# Dá um beijo nele.
# Quanto você tirou?
# Tirei no quê?
# Nos sintomas. Eu sei que você sempre se aplica e reaplica nestes testes.
# Quatro. Tirei quatro.
# Nunca pensei que fosse ganhar uma de você.
# Aqui, menos é mais. A medalha é minha.
# É. Tem coisa que nunca vai mudar.
registrados
Socorro Melo e Castro casou-se. Não teve filhos e acostumou-se com a casa apertada, com o forno de fogo baixo e com a cama que rangia. Uma fotografia sua está pendurada em um museu de Fortaleza e seu nome, hoje, é apenas a legenda de uma fotografia triste.
dos outros
Não fico triste por não estar tão feliz nem fico feliz por não estar tão triste. Perto de mim, o outro sempre se alegra mais do que eu pela minha vitória. Para o outro, sempre será mais aterrorizante a minha doença. Do outro lado, as bençãos e revezes sempre são mais verdes. Porque a minha vitória, a minha doença, a minha benção e o meu revés estão dentro de mim e não me são estranhos, são meus companheiros íntimos. Para o outro, tudo meu é estranho e abstrato. E potencialmente bom.
camuflados
Não tente me conhecer através dos meus textos. Eu posso tentar te enganar, o tempo todo. Não tente saber como eu faço para te enganar através dos meus textos. Eu posso falar a verdade para te confundir. Não tente descobrir a verdade atrás dos enganos que eu envio para te confundir. Não tente me decifrar. Não aqui.
estáticos
Um sujeito muito discreto. Não gosta de aparecer. Ao sair de casa, tira o som do celular. Anda a cidade toda, todo dia, sozinho, sozinho, sozinho. E torce para ser lembrado. Olha para a tela do aparelho e pede: alguém, alguém, alguém. Me vibra, vai. Por favor.
passados
Eu gostava de sentar no meio fio, gostava de brincar com pé de galinha, gostava de me cobrir de areia quente e de sentir o rosto grudento depois de raspar doce da panela. Desconfio que ainda goste disso tudo. Mas as cadeiras lustradas, os jogos eletrônicos, os filtros solares e a dieta dos pontos me ensinaram a dizer que não.
honestos
parados
binários
melhores
por um triz
E pensar que quase fui outra coisa. E pensar que quase não soube, quase não vi, quase não quis. E pensar que por pouco, e pensar que bem perto, e pensar que outra vez. E pensar que me tornei, por um breve segundo, mas retornei por outro.
resistentes
secos
primos
rústicos
O estofado de couro, o lençol de algodão egípcio, as telas sensíveis ao toque, a faixa etária indicativa, o efeito siliconado do sabonete, os fones com espuminha, os tênis com super amortecimento. Quando você dispara na direção de uma floresta, e embrenha-se, e esquece dos escudos e embalagens, a realidade se insuportabiliza de um jeito... E fica cada vez mais difícil retornar à maciez dos dias.
invisíveis
O retorno é difícil. Talvez seja difícil mesmo quando desejado. Eu pensava nisso enquanto retornava de algum lugar. Não importa qual lugar. O ato do retorno, o recruzar de uma fronteira, a volta ao repouso, ou o inverso disso: o retorno é, agora, um quarto pequeno com paredes invisíveis. A invisibilidade das paredes não faz do quarto um lugar menos claustrofóbico. A angústia é, por vezes, maior. É um não saber de onde se vem, para onde se vai. Ou é justamente o tanto saber da partida, o tanto conhecer sobre a chegada. De qualquer forma, uma impossibilidade de ação, um purgatório brando, um punhado de recéns, um punhado de quases. De onde vem tanta angústia? Da morte do lugar de origem, do nascimento difícil de um lugar desconhecido? Onde estão as paredes para justificar minhas ações suspensas e a ebulição gelada que me comprime o peito?
de busca
reciclados
de frio na barriga
sobrepostos
importantes
de balanço
Domingo deu pane no metrô e perdi dez minutos. Ontem deu uma queda de luz e os exames precisaram ser refeitos. Perdi trinta minutos. Hoje o despertador não tocou e perdi uma hora. Também hoje, o computador acordou lento. Perdi quarenta minutos limpando, diagnosticando, reiniciando. Agora, escrevi esse balanço, e deu positivo. Tudo recuperado.
reativos
fechados
Como qualquer criança, eu também costumava confundir os nomes das coisas. Prefiro pensar assim, que minhas confusões eram sinais próprios de qualquer vidinha, e não traços pessoais que se transformaram com o tempo, mas nunca deixaram de existir. Quando via uma partida de basquete, chamava de tênis, e parava pra pensar, percebendo que o nome não encaixava. Não sou mais criança, dizem. Mas quando vejo você chegar em casa, com ar desajeitado de quem levou alguma da vida, e calado, e impenetrável, numa fechadura emperrada pelo tempo, talvez nosso tempo... Não sei. Nessas horas, continuo a trocar os sofás pelas poltronas.
necessários
de tempestade
chchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchchuvarrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrraiovvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvento
de dor
conquistados
alterados
cansados
pensando
O entrevistado disse: como pode o Hitchcock sempre aparecer nos próprios filmes? E eu fiquei pensando, olha só que coisa: como um diretor pode não aparecer? Como?
grandes
Não fiz aquele mundo de promessas de ano-novo. Não fiz, não faço. Mas é que o ano, desde o primeiro dia, deu de me prometer o mundo. E eu dei de agradecer. Eu dei de aceitar.
atrasados
Espera um pouco, que eu já vou começar. E o café, e a água gelada. Peraí, só um pouquinho. E o jornal, e os blogs para ler. Chegando aí, aguenta mais um pouco. E a vontade de ir ao banheiro. Quase, quase. E a moça que limpa a casa, e o telefone, e a conta, e a obra no apartamento de cima e, e, e. E?
eternos
Se a eternidade, como disse um, é o arquétipo do tempo, e se o tempo é, como disse outra, um instante a ser agarrado urgentemente, me flagro na seguinte situação: um caçador cavando fundo no inconsciente, à procura da imagem perfeita, segurando bem firme no rabicho da eternidade, indo, tentando ir, querendo ir.
indo
Eu vou roteirizar um filme. Eu vou compor uma canção. Eu vou reescrever uma peça. Eu vou pesquisar prum livro. Eu vou finalizar uma tela. Eu vou arriscar uma dança. Eu vou. Eu vou. Eu vou. E, numa dessas, nem volto.
de susto
a limpo
felizes
alegres
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presentes
lúcidos
E quando me perguntam pra que servem os livros de ficção, eu gosto de responder que não servem pra nada, daí a utilidade. Resposta escutada, resposta adotada: arte não serve mesmo pra nada.
Assim, tem ferro de escrever, saco de casamento, máquina de aniversário, roupa de olho, vestido de compras, bola de missa, lápis de passar, bolsa de futebol, bolo de dormir. Ou.
revistos
calados
quentes
1 pinguim dançando rumba.
2 pinguins dançando rumba.
3 pinguins dançando rumba.
4 pinguins dançando rumba.
5 pinguins dançando rumba.
Mas, contando, ninguém acredita.
errados
infernais
insuportáveis
# E por que você não tira um tempo sozinha e vai pra uma casa na praia?
# Ah, não. Não suporto.
# Você não gosta de praia?
# Não, eu não gosto de casa.
(diálogo roubado)
no cinema
E num domingo de dezembro, tanta gente solta na rua, bateu uma tristeza, e dei de ficar triste, me deu uma tristeza, e me entristeci e, então, fiquei bem e triste. E, sim, é melhor ser alegre que ser triste. Mas a tristeza dá o tom da minha alegria, e ela é genuína. E quando foi diferente?
de fila
exagerados
(pausa)
E não é que de um ano pra cá me deu essa mania de exagerar nas interrogações?
estagnados
apagados
Listou os acontecimentos com o seguinte cabeçalho: "Acontecimentos do domingo".
1- Compramos um novo roteador mas não conseguimos instalá-lo;
2- Ao verificar um fio na tomada perdi o equilíbrio e quebrei dois vasos presenteados por minha mãe;
3- Penduramos dois quadros, um ficou torto, o outro despencou;
4- A máquina de lavar louças vazou água;
5- O programa gravado na TV à cabo travou e não passou inteiro.
Depois, trocou o cabeçalho: "Acontecimentos da segunda".
Desistiu do domingo, foi dormir, e só quis acordar na sexta.
dezembros
consumados
esperados
de descanso
escuros
E a velha de vestido vermelho pediu um chocolate gelado, e pediu alto, para quem pudesse ouvir. E eu, pouco alerta naquela manhã, ouvi.
- Um chocolate frio?
- Não. Chocolate gelado. E bem clarinho. Se vier forte mando voltar.
Pedido anotado, acompanhei. Cinco minutos e voltou o garçom com o copo alto de chocolate. Gelado? Não sabia. Mas escuro, suficientemente escuro. E o garçom deixou o copo na mesa, olhando a velha de cima, contando, com o olhar, que sabia muito bem do erro. Mas arriscou, e não perguntou nada, afastou-se.
A velha acompanhou o garçom sem desviar o olhar. O garçom atendendo outros clientes, mas vendo a velha, olhando de lado. E a velha dizia muita coisa, mas não falou nada, não acenou, não chamou de volta, não reclamou do chocolate escuro, e talvez frio, apenas frio.
Virando-se, comentou para as câmeras, sabendo-se dona do espetáculo, conhecendo meu papel de platéia.
- O pior incompetente é o consciente.
esquisitos
entre instalações
verdes
Bebe o chá verde na caneca, a temperatura da água antes de ferver, água turva de um verde grosso, e sente algo do qual não enxerga os sinais há anos. Sorvendo cada gota do chá, em uma das três canecas diárias, acredita nos princípios ativos liberados pelo calor, princípios cheios de promessas, e acredita poder sentir tais princípios muito bem ativados num gosto azedo, e também amargo, concentrados lá no fundo da garganta. É estranho, mas o que sente é fé, numa forma líquida e quente.
sem saber
comigo
- Eu preferia não estar.
- Como é isso?
- Simplesmente não é.
- Apático?
- Hã?
- Apático?
(pausa)
- Hã?
no ônibus
inadequados
O médico perguntou:
Como está se sentindo?
Ela respondeu:
Doutor, sinto-me uma ameixa.
Em tempo, o médico refreou qualquer reação. Deixou uma pausa e:
Dona Élida, não estamos na época de ameixas.
Ao final da consulta, dona Élida se abrigou num canto e, antes de marcar o retorno, secou algumas lágrimas. Sentia-se deslocada, de tudo.
mudos
de desordem
reticentes
na rua
vermelhos
passageiros
acelerados
Duílio percebeu que até certa idade cuidou de preencher lacunas, e que lacunas outras foram se abrindo no percurso, lacunas lacradas ao preenchimento, e agora tem medo de se transformar numa grande página em branco, e por isso tenta aumentar a velocidade dos trabalhos e procura ter o lápis sempre apontado. Corre, Duílio, corre.
de compras
de esperança
declarados
cinzentos
- Prontinho, desculpe a demora. Mais um café?
- Não, obrigada.
- Não vai querer mais nada?
- Por enquanto não.
- É que a senhora estava me olhando, então eu pensei.
- É que você é bonito.
com novidade
- Raspou?
- É...
- Mudar a cara às vezes é bom.
- Pois é...
- É trabalho?
- Trabalho?
- Peça nova?
- Pode ser. Dessas que a vida prega, sabe?
precários
Olhou para a fruteira e viu que as laranjas se empilhavam de um jeito muito curioso. Na ponta dos pés, se aproximou da janela lentamente, cortou a circulação de qualquer vento. Aquele equilíbrio era um mistério, era precário, precisava ser protegido. Voltou para a cama, silenciosa. E até o ar era frágil, por isso suspirou com economia. Agora, esticaria mais uma horinha de refúgio.
de convivência
- Quero dizer que me sinto pessoalmente atingido pelo que você disse sobre a minha banda de rock favorita.
- Não se trata sequer de uma banda de rock, mas de um grupo de adultos infantilizados fabricado na nuvem eletrônica, um bando de idiotas que teve a sorte de ser inventado antes mesmo de existir.
- É a sua opinião.
- É a opinião de quem foi forçado a escutá-los durante o fim de semana inteiro.
- Isso me atingiu pessoalmente e me dá vontade de chorar.
- Bem vindo ao clube dos que escutam o que não gostam.
de chico
Cantou alto até o fim. Pediu para repetir. Repetiu.
E então veio o grito da rua: desce, só falta você.
áridos
assépticos
de malu
Quando lembra da Malu, CS escuta uma música, saudade com trilha sonora. Malu foi sua amizade inesperada, amiga de depressão, veio descida do Olimpo. Malu era uma garota polêmica, como todo adolescente popular. Um dia, Malu olhou para o limbo, e viu o menino que transitava entre os dois mundos, o popular e o silencioso, mas não era tão percebido. CS ficou amigo de Malu, ou o contrário, e apaixonou-se por ela, e desapaixonou-se por ela, e irmanaram-se, até o dia em que CS disse para Malu, ingrato: teus olhos perderam o brilho pra mim. Malu passou. Mas hoje, quando CS põe a mão sobre o ombro de alguém, e quando, num intervalo de antipatia, simplesmente acolhe, Malu é um pedaço de alguém que esse alguém vê no fundo de seus olhos. Esse alguém toma Malu por CS, mas nem desconfia.
invertidos
Vado confere o rosto três vezes ao dia, logo após as refeições. Checa os cabelos a qualquer momento, qualquer porta de vidro, qualquer espelho de oportunidade. Tela de computador. Poça d'água. O espelho retrovisor jogado para a esquerda. O mundo é um palíndromo aos olhos de Vado e, mesmo depois de tanto tempo, ele ainda confunde o d com o b, pois tem pressa.





















